O NATAL SOB UMA PERSPECTIVA HISTÓRICA

Este breve resumo tem como objetivo analisar as narrativas sobre o Natal e descrever a origem de algumas de suas tradições sob uma perspectiva histórica. Para maior clareza didática, dividi o texto em duas partes: (i) a Natividade, que trata do nascimento de Jesus, e (ii) a festa de Natal propriamente dita. Ao final, reproduzo os trechos dos evangelhos que descrevem a natividade.

A NATIVIDADE

Tudo o que se sabe sobre a natividade de Jesus provém dos evangelhos canônicos de Mateus e de Lucas1, que integram o Novo Testamento. Acredita-se que ambos tenham usado o evangelho de Marcos2 como fonte primária e que os relatos sobre a natividade sejam acréscimos posteriores, baseados em fontes independentes entre si. As duas narrativas apresentam não apenas divergências relevantes, como também eventos improváveis. Ainda que seja injusto esperar delas o mesmo rigor de um historiador grego como Tucídides — dado o seu foco doutrinário —, vale uma análise crítica de alguns dos pontos descritos. É importante ressaltar, contudo, que o uso frequente de expressões como “pode ter sido”, “possivelmente” ou “uma explicação para isso” decorre da dificuldade de se ter certeza sobre a maioria das interpretações

O ano.

Mateus associa o nascimento de Jesus ao reinado do rei Herodes3, que morreu em 4 a.C. Já Lucas o vincula ao censo de Quirino4, governador da Síria, evento ocorrido cerca de dez anos mais tarde, por volta de 6 d.C. Diante dessas discrepâncias, os historiadores modernos preferem situar o nascimento de Jesus entre os anos 6 e 4 a.C. — ou seja, antes do ano designado (erroneamente) como o ano 15.

A data.

Nem Lucas nem Mateus mencionam o dia e o mês do nascimento de Jesus, mas a presença simbólica de pastores e de seus rebanhos sugere que ele possa ter ocorrido na primavera do hemisfério norte (entre março e junho), e não no inverno (entre dezembro e março). O dia 25 de dezembro só foi identificado como data do nascimento por volta de 220 d.C., tornando-se posteriormente a data universalmente aceita. Uma explicação é que essa data — próxima ao solstício de inverno6 — já era um feriado popular no Império Romano, quando se celebrava a Saturnália, festival em homenagem ao deus Saturno que incluía sacrifícios, um banquete público e a troca de presentes. Como o povo já estava habituado ao clima festivo, a escolha da data provavelmente não foi mera coincidência.

Belém ou Nazaré?

O evangelho de Mateus parece sugerir que José e Maria já viviam em Belém, na Judeia7, enquanto o de Lucas afirma que moravam em Nazaré, na Galileia, e teriam ido a Belém apenas por causa do censo. Em Mateus não há viagem, nem hospedaria, nem manjedoura, nem pastores. Os historiadores consideram mais provável que Jesus tenha de fato nascido em Nazaré, onde teria vivido a maior parte de sua vida. A adoção de Belém como local do nascimento seria uma tentativa da comunidade cristã original de preencher as lacunas sobre a origem de Jesus e alinhar sua vida e missão às profecias messiânicas das escrituras judaicas. Uma dessas profecias afirmava que o messias, descendente do rei David8, nasceria em Belém, cidade de origem de David. Como Jesus era conhecido como “o Nazareno”, supõe-se que os evangelistas recorreram a essa solução criativa — levar seus pais a Belém — para que ele nascesse na mesma cidade que David e, assim, cumprisse as profecias.

O local da natividade.

Se considerarmos que Jesus tenha efetivamente nascido em Nazaré, a conhecida Gruta da Natividade, em Belém, seria espúria. De qualquer forma, a controvérsia é antiga. Em 135 d.C., o imperador Adriano9 converteu a gruta em local de adoração a Adônis, o amante mortal da deusa Afrodite. Jerônimo de Strídon10 escreveu que o santuário e o bosque ali plantados tinham justamente o objetivo de apagar por completo a memória de Jesus. Esse argumento, porém, é contestado por estudiosos que sustentam o contrário: o culto de Adônis-Tamuz teria dado origem ao santuário, tomado anos mais tarde pelos cristãos, que o substituíram pelo culto a Jesus. Tanto essa gruta quanto outros locais na Palestina foram oficializados como santos por Helena11, mãe do imperador Constantino12, no século IV. A primeira basílica sobre a gruta foi erguida durante o reinado de Constantino.

A matança dos inocentes.

Mateus é também o único a narrar que Herodes teria ordenado “que matassem todos os meninos de dois anos para baixo, em Belém e nas proximidades”. Como em outras passagens, não há qualquer registro histórico de que isso tenha ocorrido13. É provável que a narrativa tenha sido criada a partir da péssima reputação de Herodes, acusado de assassinar membros da própria família — entre eles, três de seus filhos.

O censo ordenado pelos romanos.

Lucas é o único a relatar que “César Augusto14 publicou um decreto ordenando o recenseamento de todo o império romano. Este foi o primeiro recenseamento feito quando Quirino era governador da Síria”. Trata-se de um fato com registro histórico, ainda que realizado em âmbito local15. O problema está na descrição, que não faz sentido. Os romanos realizavam censos para fins tributários, com o objetivo de saber quantas pessoas viviam em determinada área e assim estimar a arrecadação de impostos. Lucas, porém, afirma que José — morador de Nazaré — deveria ir a Belém por pertencer à casa e à linhagem de David, seu suposto ancestral de cerca de mil anos antes. Em termos logísticos, tal modelo de censo seria absurdamente complexo, e não há registro de que os romanos, um povo essencialmente pragmático, o tenham praticado. Portanto, além do problema da data muito posterior (6 d.C.), usar o censo para justificar a ida da família a Belém não parece razoável.

Carpinteiro.

Mateus diz que Jesus era filho de um tékton (τέκτων), palavra grega normalmente traduzida por “carpinteiro”, mas que também pode designar artesão, pedreiro, construtor, professor ou engenheiro. Da mesma raiz derivam os termos “técnico” e “tecnologia”. Para além dos evangelhos, a associação de Jesus à carpintaria já estava presente na tradição cristã entre os séculos I e II d.C.

Os reis magos.

Mateus, o único a citá-los, afirma que “magos vindos do oriente” chegaram a Jerusalém à procura do rei dos judeus (não há referência de que fossem reis ou governantes de qualquer tipo). O termo mago é de origem persa e designava os sacerdotes do culto a Zoroastro (ou Zaratustra). Uma das explicações para essa parte da natividade pode estar na viagem do rei Tiridates I, da Armênia, a Roma, em 66 d.C., para visitar o imperador Nero16. Além de rei, Tiridates era sacerdote zoroastriano e fez-se acompanhar por outros magos. O episódio, ocorrido poucos anos antes da composição do evangelho de Mateus, impressionou profundamente seus contemporâneos e pode ter sido adaptado pelos cristãos para se tornar a história da adoração do Menino Jesus pelos magos17.

A estrela.

Ligada à história dos magos, a “estrela no oriente” é mencionada apenas por Mateus, e os estudiosos acreditam que, tal como os magos, se trate de uma inserção destinada a firmar o status messiânico de Jesus. Como evento astronômico, três hipóteses poderiam explicá-la. A primeira é a de um cometa: o Halley esteve visível em 12 a.C., e outro objeto — possivelmente também um cometa — foi registrado por chineses e coreanos por volta de 5 a.C. Era comum os autores antigos descreverem cometas como “pairando sobre” determinadas cidades, tal como a Estrela de Belém, que “parou sobre o lugar onde estava o menino”. A hipótese é considerada improvável, contudo, porque, na Antiguidade, os cometas eram em geral vistos como mau presságio, e Mateus dificilmente associaria o nascimento do messias a um evento desse tipo. A segunda hipótese, mais recente, é a de uma supernova ou hipernova que teria explodido perto da galáxia de Andrômeda; no entanto, é muito difícil encontrar vestígios de supernovas, o que a torna dificilmente comprovável. A terceira — e mais provável — é a de uma conjunção planetária, ou de um planeta com uma estrela. Entre 3 e 2 a.C. ocorreu uma série de conjunções desse tipo, capazes de produzir um brilho incomum no céu. A mais provável teria sido entre Júpiter e Saturno — como a observada em dezembro de 202018 — ou, em uma variante, entre Júpiter e Vênus.

Fuga para o Egito.

Novamente, apenas o evangelho de Mateus narra a passagem em que José e sua família fogem para o Egito por causa de Herodes. Lucas nada diz sobre o Egito: relata apenas que, após o nascimento, a família foi ao Templo em Jerusalém e depois retornou a Nazaré. Uma viagem da Palestina ao Egito implicaria percorrer cerca de 500 km por regiões áridas e difíceis — tarefa complexa para uma família de poucos recursos com um recém-nascido. Os historiadores tendem a acreditar que a fuga tenha sido inventada por Mateus para associar Jesus à figura mítica de Moisés e, assim, atrair o interesse do público judeu.

A FESTA DE NATAL

No princípio, a natividade de Jesus não despertava grande interesse entre os cristãos e só passou a ser comemorada por volta do século IV, cerca de trezentos anos após sua morte. Foi apenas no século IX, contudo, que o Natal passou a ser celebrado como liturgia específica. Ao longo dos séculos, a festividade transformou-se num grande evento, incorporando elementos de diferentes culturas.

A Missa do Galo (tradição entre os católicos) teria origem no costume de celebrar uma vigília noturna de Natal à meia-noite, “logo após o canto do galo”, na basílica de Santa Maria Maggiore19, em Roma. O costume teria sido introduzido pelo papa Sisto III20 no século IV. A expressão provavelmente se deve ao fato de que os romanos chamavam de “canto do galo” o início do dia, à meia-noite — razão pela qual a missa celebrada nesse horário ficou conhecida como Missa do Galo.

Essa missa pode ter origem ainda mais antiga, no relato de Egéria21, mulher de origem ibérica que teria peregrinado à Terra Santa por volta de 381–384 d.C. Ali, ela teria testemunhado que os primeiros cristãos da Palestina já honravam o Natal com uma vigília à meia-noite em Belém.

A figura do Papai Noel (ou Santa Claus) baseia-se provavelmente nas tradições em torno do histórico São Nicolau22, bispo de Mira (atual Turquia) que viveu no século IV e era conhecido como doador de presentes. Com a cristianização do norte da Europa, a partir do século X, a lenda de Nicolau teria se mesclado à do deus nórdico Odin, responsável, segundo a mitologia, por entregar presentes durante o Yule (ou Jól), festival realizado no solstício de inverno. Para isso, Odin sobrevoava os céus montado em Sleipnir, seu cavalo de oito patas — lenda que poderia estar na origem das oito renas e do trenó do Papai Noel. Assim, Nicolau “migrou” para o Polo Norte, em meio ao frio, muito longe da relativamente quente Turquia. Na década de 1930, o vermelho de suas vestes foi incorporado à tradição após uma grande campanha natalina patrocinada pela Coca-Cola nos Estados Unidos.

A origem do presépio, segundo a tradição católica, remonta a São Francisco de Assis23, ainda que não haja provas disso. Sua forma atual reúne elementos citados por Mateus e Lucas: Jesus, Maria, José, a manjedoura, os anjos, os pastores e seus rebanhos, a famosa estrela e os magos — cujos nomes só foram acrescentados muito tempo depois dos evangelhos.

A árvore de Natal foi incorporada à tradição cristã no século XVI. Acredita-se que o costume tenha surgido na Alemanha e que Lutero24 tenha sido o primeiro a acrescentar velas acesas a uma árvore. Contudo, como ocorre com toda figura de destaque, é possível que o feito lhe tenha sido atribuído apenas para valorizá-lo.

O peru de Natal foi outra incorporação curiosa. Ave nativa da América do Norte, era desconhecida na Europa e na Ásia até o século XVII. Foi servido de forma festiva pela primeira vez pelos peregrinos ingleses em Plymouth, Massachusetts, no Dia de Ação de Graças de 1621. Posteriormente, passou a integrar também a ceia de Natal em países europeus e na América Latina.

A canção de Natal. Por fim, a mais famosa música natalina foi composta em 24 de dezembro de 1818 pelo organista austríaco Franz Xaver Gruber, a pedido de seu amigo Joseph Mohr, como melodia para um poema que este escrevera dois anos antes. Intitulada em alemão “Stille Nacht, heilige Nacht” (“Noite silenciosa, noite sagrada”), foi curiosamente traduzida para o português como “Noite Feliz”.

CONCLUSÃO

Ainda que nada do que foi relatado aqui possa ser tomado como fato histórico — nem, tampouco, negado de forma categórica —, e abstraindo-se a questão religiosa, é possível afirmar que a história real da natividade foi, muito provavelmente, bem menos fantástica do que a narrada pelos evangelhos. Yeshua ben Yosef (Jesus, filho de José) nasceu entre os anos 5 e 4 a.C., no seio da família de um artesão judeu e de sua mulher, Mariam, que viviam na pequena aldeia25 de Nazrath (Nazaré), em Hagalil (Galileia), no fim do governo de Herodes, o Grande, ou no início do de seu filho, Herodes Antipas26 — portanto, antes de a Palestina tornar-se parte do Império Romano. Seu nascimento, bem como sua vida até o início da pregação, por volta dos trinta anos, não foi considerado digno de registro por seus contemporâneos27. Somente décadas após sua morte, quando sua figura se tornou Jesus Cristo28, eventos grandiosos foram acrescentados para enriquecer o relato de seu nascimento. Suas ideias tornaram-se amplamente conhecidas para além do âmbito sectário judaico sobretudo graças às pregações de Paulo29.

Com o tempo, a comemoração de seu nascimento ganhou muito mais visibilidade do que a da Páscoa. Na realidade — embora isso seja pouco lembrado entre os cristãos —, é a Páscoa, e não o Natal, a data mais importante de todo o ano litúrgico. Costuma-se dizer que, sem a Páscoa, o Natal não teria importância, pois a essência do cristianismo está ligada à morte e à ressurreição de Jesus, não ao seu nascimento. Prova disso é que os quatro evangelhos canônicos tratam longamente dos eventos de sua morte e ressurreição, enquanto apenas dois abordam a natividade — e ainda assim de maneira algo desconexa.

Ao longo dos séculos, entre lendas e surpreendentes adaptações, formou-se a tradicional festa secular hoje celebrada por mais de 2 bilhões de pessoas em todo o mundo — cerca de um terço da humanidade. Ao menos desde o século XX, o Natal passou também a ter grande impacto econômico, movimentando somas expressivas em compras e viagens. Mas, independentemente de sua importância relativamente menor dentro da religião, dos possíveis equívocos quanto ao motivo de sua comemoração e de seu aspecto mais comercial nos tempos recentes, o Natal é um grande evento. Para os devotos, é um momento de união, de renovação da fé no Cristo Salvador, de reencontro com a família e os amigos. Parte dessas experiências é igualmente válida para agnósticos e ateus.

FONTES:

  • CROSSAN, John Dominic – The Historical Jesus: The Life of a Mediterranean Jewish Peasant, Harper Collins, 1993.

  • HABERMAS, Gary R. – The Historical Jesus: Ancient Evidence for the Life of Christ, College Press Publishing Co., 1996.

  • bibliaon.com/novo_testamento (Bíblia Sagrada Online);

  • britannica.com;

  • en.wikipedia.org.

 

EXTRATOS DOS EVANGELHOS QUE DESCREVEM A NATIVIDADE

Lucas 2

  1. Naqueles dias, César Augusto publicou um decreto ordenando o recenseamento de todo o império romano.

  2. Este foi o primeiro recenseamento feito quando Quirino era governador da Síria.

  3. E todos iam para a sua cidade natal, a fim de alistar-se.

  4. Assim, José também foi da cidade de Nazaré da Galileia para a Judeia, para Belém, cidade de David, porque pertencia à casa e à linhagem de David.

  5. Ele foi a fim de alistar-se, com Maria, que lhe estava prometida em casamento e esperava um filho.

  6. Enquanto estavam lá, chegou o tempo de nascer o bebê,

  7. e ela deu à luz o seu primogênito. Envolveu-o em panos e o colocou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria.

  8. Havia pastores que estavam nos campos próximos e durante a noite tomavam conta dos seus rebanhos.

  9. E aconteceu que um anjo do Senhor lhes apareceu e a glória do Senhor resplandeceu ao redor deles; e ficaram aterrorizados.

  10. Mas o anjo lhes disse: “Não tenham medo. Estou trazendo boas-novas de grande alegria para vocês, que são para todo o povo:

  11. Hoje, na cidade de David, nasceu o Salvador, que é Cristo, o Senhor.

  12. Isto servirá de sinal para vocês: encontrarão o bebê envolto em panos e deitado numa manjedoura”.

  13. De repente, uma grande multidão do exército celestial apareceu com o anjo, louvando a Deus e dizendo:

  14. “Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens aos quais ele concede o seu favor”.

  15. Quando os anjos os deixaram e foram para os céus, os pastores disseram uns aos outros: “Vamos a Belém, e vejamos isso que aconteceu, e que o Senhor nos deu a conhecer”.

  16. Então correram para lá e encontraram Maria e José e o bebê deitado na manjedoura.

  17. Depois de o verem, contaram a todos o que lhes fora dito a respeito daquele menino,

  18. e todos os que ouviram o que os pastores diziam ficaram admirados.

  19. Maria, porém, guardava todas essas coisas e sobre elas refletia em seu coração.

  20. Os pastores voltaram glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido, como lhes fora dito.

Mateus 2

  1. Depois que Jesus nasceu em Belém da Judeia, nos dias do rei Herodes, magos vindos do oriente chegaram a Jerusalém

  2. e perguntaram: “Onde está o recém-nascido rei dos judeus? Vimos a sua estrela no oriente e viemos adorá-lo”.

  3. Quando o rei Herodes ouviu isso, ficou perturbado, e com ele toda Jerusalém.

  4. Tendo reunido todos os chefes dos sacerdotes do povo e os mestres da lei, perguntou-lhes onde deveria nascer o Cristo.

  5. E eles responderam: “Em Belém da Judeia; pois assim escreveu o profeta:

  6. “Mas tu, Belém, da terra de Judá, de forma alguma és a menor em meio às principais cidades de Judá; pois de ti virá o líder que, como pastor, conduzirá
    Israel, o meu povo”.

  7. Então Herodes chamou os magos secretamente e informou-se com eles a respeito do tempo exato em que a estrela tinha aparecido.

  8. Enviou-os a Belém e disse: “Vão informar-se com exatidão sobre o menino. Logo que o encontrarem, avisem-me, para que eu também vá adorá-lo”.

  9. Depois de ouvirem o rei, eles seguiram o seu caminho, e a estrela que tinham visto no oriente foi adiante deles, até que finalmente parou sobre o lugar onde estava o menino.

  10. Quando tornaram a ver a estrela, encheram-se de júbilo.

  11. Ao entrarem na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, o adoraram. Então abriram os seus tesouros e lhe deram presentes: ouro, incenso e mirra.

  12. E, tendo sido advertidos em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram a sua terra por outro caminho.

  13. Depois que partiram, um anjo do Senhor apareceu a José em sonho e lhe disse: “Levante-se, tome o menino e sua mãe, e fuja para o Egito. Fique lá até que eu diga a você, pois Herodes vai procurar o menino para matá-lo”.

  14. Então ele se levantou, tomou o menino e sua mãe durante a noite e partiu para o Egito,

  15. onde ficou até a morte de Herodes. E assim se cumpriu o que o Senhor tinha dito pelo profeta: “Do Egito chamei o meu filho”.

  16. Quando Herodes percebeu que havia sido enganado pelos magos, ficou furioso e ordenou que matassem todos os meninos de dois anos para baixo, em Belém e nas proximidades, de acordo com a informação que havia obtido dos magos.

  17. Então se cumpriu o que fora dito pelo profeta Jeremias:

  18. “Ouviu-se uma voz em Ramá, choro e grande lamentação; é Raquel que chora por seus filhos e recusa ser consolada, porque já não existem”.

  19. Depois que Herodes morreu, um anjo do Senhor apareceu em sonho a José, no Egito,

  20. e disse: “Levante-se, tome o menino e sua mãe e vá para a terra de Israel, pois estão mortos os que procuravam tirar a vida do menino”.

  21. Ele se levantou, tomou o menino e sua mãe e foi para a terra de Israel.

  22. Mas, ao ouvir que Arquelau estava reinando na Judeia em lugar de seu pai Herodes, teve medo de ir para lá. Tendo sido avisado em sonho, retirou-se para a região da Galileia

  23. e foi viver numa cidade chamada Nazaré. Assim cumpriu-se o que fora dito pelos profetas: “Ele será chamado Nazareno”.

 

1 Os nomes dos autores dos evangelhos são convenções. Os estudiosos modernos rejeitam a tradição de que Mateus seria o apóstolo de mesmo nome e acreditam que o evangelho teria sido originalmente escrito em grego por um autor anônimo bem mais tarde, entre 80 e 90 d.C. (ou talvez entre 70 e 110 d.C.). Isso também vale para o evangelho de Lucas. Há um consenso que descarta a visão tradicional de que o autor teria sido Lucas o Evangelista, o companheiro de Paulo, devido às muitas contradições entre o texto com os das cartas de Paulo, consideradas autênticas. Esse evangelho também teria sido escrito entre 80 e 110 d.C.

2 Tal como o evangelho de João, Marcos não trata da natividade em seu texto.

3 Herodes (73-4 a.C.), nomeado pelos romanos como Rei da Judeia. Foi chamado de ‘O Grande’ e foi um grande construtor. Sua maior obra foi a reconstrução do Templo de Jerusalém, posteriormente destruído pelos romanos após a grande revolta judaica entre 66 e 73 d.C.

4 Publius Sulpicius Quirinius (51 a.C.–21 d.C.), senador, cônsul e legado imperial romano na Síria.

5 A contagem do calendário a partir do nascimento de Jesus foi determinada por volta de 525 d.C. por Dionysius Exiguus, teólogo-matemático de origem cita a partir do ano do nascimento de Jesus Cristo, o Anno Domini, que seria o ano 1 d.C. (depois de Cristo). Curiosamente o ano imediatamente anterior foi designado como o 1 a.C. (antes de Cristo). Ou seja, por ignorância matemática ou por opção, não foi previsto por ele a existência de um ano “zero”.

6 O solstício de inverno no hemisfério norte ocorre quando o Sol atinge a maior inclinação em relação ao plano que passa pela linha do equador (normalmente por volta do dia 21 ou 22 de dezembro), mas comemorado no dia 25 nos tempos romanos.

7 Na época do nascimento de Jesus a Judeia era um reino independente, ao contrário da época de sua morte, quando já tinha sido incorporada como província ao Império Romano.

8 David foi um lendário rei dos hebreus citado no velho testamento (Livros de Samuel, Crônicas e Salmos). Teria vivido por volta do século X a.C. e teria sido o pai de Salomão.

9 Publius Aelius Adrianus (76-135 d.C.), imperador dos romanos.

10 Jerônimo de Striton (347-420 d.C.), sacerdote, teólogo e historiador de origem dálmata (atual Croácia).

11 Flávia Julia Helena (250-330 d.C.), nascida na Bitínia (atual Turquia).

12 Flavius Valerius Constantinus (272-337 d.C.), sexagésimo quarto imperador dos romanos e o primeiro a adotar o cristianismo como religião oficial em todo o império.

13 Alguns estudiosos cristãos justificam a não citação do massacre por conta de a cidade ser pequena, com apenas cerca de 300 habitantes, e que, por isso, o número de mortos seria reduzido, entre 10 e 20, no máximo.

14 Gaius Octavius, posteriormente Caesar Augustus (63 a.C.-14 d.C.), primeiro imperador dos romanos.

15 Jamais houve um censo para todo o império.

16 Nero Claudius Caesar Augustus Germanicus (37-68 d.C.), quinto imperador dos romanos, foi o grande patrono da ascensão de Tiridates I ao trono da Armênia, por isso a visita deste a Roma.

17 Mateus não informou o nome dos Magos. Um manuscrito do século VIII ou IX, de origem irlandesa, citado em uma edição impressa de obras atribuídas (provavelmente de maneira incorreta) a São Beda, o Venerável, publicada em Basileia em 1563, nos dá as seguintes pistas sobre esses homens: O mais velho dos Magos era Melchoir, rei da Arábia. Ele tinha uma longa barba grisalha e ofertou ouro como um presente, simbolizando a aceitação de Cristo como Rei; Balthazar, rei da Etiópia, era de meia-idade, moreno, barbudo e trazia o dom do olíbano, simbolizando Cristo como Sumo Sacerdote; Finalmente, Caspar era o rei de Tarso e estava na casa dos vinte anos. Seu presente era a mirra, era usada para fazer remédios. Isso simbolizava Cristo como o curador e um grande médico.

18 A conjunção entre Júpiter e Saturno é um fenômeno que ocorre a cada 20 anos e pode acontecer em qualquer dia do ano, dependendo de onde os planetas estão em suas órbitas. Há eventos especiais como a conjunção de 2020, que, segundo a NASA, é muito rara e que teria ocorrido pela última vez há 800 anos.

19 Igreja construída entre 420 e 434 d.C., sendo reformada nos séculos seguintes. A Basílica de São Pedro, onde a missa é realizada atualmente, foi erguida somente no século XVI, mais de 1.000 anos depois.

20 Sisto III, Papa entre 432 e 440 d.C., nascido em Roma.

21 Ou Etheria ou Aetheria., que teria escrito uma longa carta (Peregrinatio ou Itinerarium Egeriae) dirigida a um círculo de mulheres de sua terra relatando sua jornada.

22 São Nicolau (270-343 d.C.) é um santo padroeiro de muitas causas: dos marinheiros, mercadores, arqueiros, ladrões arrependidos, prostitutas, crianças, cervejeiros, penhoristas, solteiros e estudantes em países europeus.

23 São Francisco de Assis (1182-1226), sacerdote italiano, fundador da ordem dos franciscanos e padroeiro dos animais.

24 Martin Luther (1483-1546), teólogo, sacerdote e compositor alemão. Foi a principal figura na reforma protestante.

25 Nazaré deveria ser apenas uma aldeia no tempo de Jesus bem como no século seguinte, já que não foi sequer citada nas narrativas das revoltas judaicas contra os romanos em 4 a.C., 70 d.C. e 135 d.C.

26 Herodes Antipas (21 a.C.-39 d.C.), tetrarca da Galileia durante toda a vida de Jesus. Mais tarde, negou-se a julgá-lo, delegando o encargo ao romano Pilatos.

27 Também não há registros contemporâneos sobre a morte de Jesus. O primeiro registro a citá-lo é de cerca de 90 d.C., quase sessenta anos depois. Flavius Josefus, um militar e historiador judaico-romano, narrou em seu livro ‘Antiguidades Judaicas’ sobre uma execução ilegal e identifica que a vítima, Tiago, seria o ‘irmão de Jesus-que-é-chamado-Messias’. Em outra passagem, ele descreve um homem ‘que fez feitos surpreendentes’ e que foi condenado a ser crucificado por Pilatos. Embora a maioria dos estudiosos atuais argumentem que partes dessa passagem teriam sido modificadas por escribas cristãos a posteriori, eles concordam que eles não a teriam inserido por completo no texto.

28 O nome “Cristo” é geralmente interpretado como o sobrenome de Jesus por causa das várias menções a “Jesus Cristo” no novo testamento. Na verdade, é um título oriundo da palavra grega Χριστός (Khristós) que significa “Ungido” e que daria origem ao termo “Cristianismo”. É pouco provável que tenha sido usada enquanto ele vivia. Nessa época, o termo era “Māšîaḥ”, transliterado para o português como “Messias”.

29 Saul de Tarso (5 – 64/67 d.C.), ou Paulo, chamado o apóstolo (embora não fosse um dos 12 apóstolos que acompanhavam Jesus em suas pregações). Foi um judeu de Tarso (na atual Turquia) e cidadão romano. É considerado por muitos como o verdadeiro fundador do Cristianismo.

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