Sobre

Quem eu sou

Quando me perguntam de onde vim, costumo dizer que de Santa Maria, Rio Grande do Sul. Nasci, na verdade, em Santo Ângelo, no mesmo estado, de onde saí antes dos três anos e para onde nunca mais voltei. Fui meio nômade durante a infância e a adolescência. Foi em Santa Maria que permaneci por mais tempo, formei-me em Engenharia Civil pela UFSM e me casei com uma colega de faculdade. Como tantos engenheiros, acabei seguindo carreira em outra área, a tecnologia da informação. Mais tarde passei à gestão empresarial. Hoje vivo na região metropolitana de Curitiba com minha esposa e minha filha — além de um cão e um gato.

O interesse pela História Antiga surgiu aos doze anos, com a leitura de uma versão simplificada da Odisseia, de Homero, livro que tenho comigo até hoje. Ao longo dos anos, esse interesse foi ampliado pelo acesso crescente a uma bibliografia mais técnica, primeiro com a possibilidade de comprar livros no exterior e, mais tarde, com a popularização dos livros eletrônicos. A Grécia sempre foi o centro de minhas pesquisas, mas a curiosidade me levou a outras civilizações do mundo antigo e medieval.

A pesquisa sustenta meu processo de escrita e é a parte de que mais gosto. Tenho uma quase obsessão pelo realismo histórico e por compreender não apenas o que aconteceu, mas como aconteceu e como aquilo poderia ter sido vivido por quem estava lá. Para isso, recorro às fontes antigas e à arqueologia para estabelecer o que está efetivamente atestado e o que a ficção precisa completar. Vou a fundo, leio o máximo que posso, às vezes até além do necessário, para entender os detalhes e tornar mais verossímil aquilo que descrevo, evitando distorções e anacronismos. Se tivesse que arriscar uma proporção entre o tempo que passo pesquisando e o que passo escrevendo, diria que é de cinco para um.

Escrever ficção histórica é como montar um quebra-cabeça do qual se perderam peças. As que restam — fatos atestados pelos documentos antigos, pela arte e pela arqueologia — servem de pontos de partida e não podem ser recortadas nem dobradas para caber onde seria mais conveniente. Como escritor, preciso criar as peças que faltam observando os encaixes que as vizinhas exigem. Assim, a paisagem começa a surgir ao redor. Se o trabalho for bem feito, o leitor não conseguirá distinguir o que é real do que é invenção.

Essa busca pelo realismo, naturalmente, não elimina a incerteza. As fontes antigas são incompletas e, por vezes, contraditórias — assim como as interpretações dos historiadores modernos. Procuro preencher suas lacunas com fundamento e coerência, consciente de que com frequência tateio no escuro. Afinal, por mais rigorosa que seja a pesquisa, continuo escrevendo ficção: um romance precisa não só ser historicamente plausível, mas também emocionar e obedecer à sua própria lógica narrativa.

Sou apaixonado por ruínas antigas e museus e busco nesses lugares um contato mais direto com o passado sobre o qual escrevo. Ao longo de minhas viagens, conheci alguns dos principais acervos de arte e arqueologia do mundo clássico e visitei dezenas de sítios arqueológicos na Grécia, na Itália e na Turquia. Poucas coisas me dão mais prazer do que pegar um carro com minha esposa e, juntos, percorrer esses lugares, visitar seus pequenos museus e vasculhar as lojinhas em busca de livros sobre a arqueologia local e réplicas de objetos antigos.

Meu interesse, porém, não se limita aos grandes monumentos listados nos guias turísticos. Nos Dardanelos — o Helesponto dos antigos gregos —, fui até a obscura praia de Hamzaköy, perto de Gelibolu, unicamente por ser um dos lugares associados à batalha de Egospótamos, decisiva nos últimos anos da Guerra do Peloponeso e descrita em meu livro Hellênika: Os Senhores do Mar. Em Fyli, a cerca de 25 quilômetros a noroeste de Atenas, nas encostas do monte Parnitha, visitei uma antiga fortaleza, erguida para guardar a passagem para a Beócia. Foi em Fyli que, em 403 a.C., os democratas atenienses iniciaram a resistência contra os Trinta Tiranos que governavam a cidade. Em Esparta, tomei uma estradinha e subi ao Meneláion, santuário dedicado a Menelau e Helena. Das ruínas, vê-se o vale do Eurotas, a paisagem da “côncava Lacedemônia” cantada por Homero, com a cordilheira do Taígeto ao fundo. Quando visitamos esses três lugares, não havia mais ninguém — somente nós dois.

Hamzaköy, Fyli e o Meneláion são apenas três exemplos. Lugares quase esquecidos como esses alimentam minha compreensão do passado tanto quanto os mais célebres e ajudam a dar forma aos cenários de minhas histórias.

Mas são as pessoas que viveram nesses cenários que mais me interessam. Procuro retratar meus personagens como homens e mulheres de carne e osso, marcados pelas escolhas, perdas e incertezas de quem viveu em meio a disputas pelo poder, guerras e grandes transformações. O que me fascina é que aquilo que de fato aconteceu, muitas vezes, é tão surpreendente quanto o que poderíamos inventar.

setembro de 2026